“Experiência nº2”

Seria “Performance” somente uma palavra que define as atuações e desempenhos de uma pessoa em qualquer tarefa comum e prevista? Que segue em linha reta, em busca de uma perfeição imaginária e psicologicamente aceita por qualquer esfera?

O Fluminense Flávio de Carvalho (um dos grandes nomes da geração modernista brasileira, que atuou como arquiteto, engenheiro, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo, performer, flashmobist e músico)  mostrou ao mundo, aos fins dos anos 30, que a intervenção da Performance às práticas artísticas de expressão podia ser muito mais emocionante e produtiva do que a conformidade e retração que a sociedade cultuava em sua rotina. Nas palavras da jornalista Gisele Kato: “Mergulhar em seu universo, mesmo hoje, quando as fronteiras entre as diversas manifestações culturais encontram-se tão diluídas, exige que se abandonem preconceitos. Flávio explorou tantas linguagens que ele escapa de um entendimento por completo.”

Pode-se afirmar então, que Flávio de Carvalho foi um dos pioneiros na forma de se tratar a arte exposta e livre de preceitos, ajudando a abrir caminho contemporaneidade aliada à performance artística, colocando em cheque os enquadramentos sociais e artísticos do modernismo, abrindo-se a experiências culturais díspares.

Um exemplo claro dessa insaciação por liberdade artística, social e psicológica foi registrada em sua atuação ousada, em uma tarde de junho de 1931, durante uma procissão de Corpus Christi que tomava a rua Direita, no centro da capital paulistana, Vendo aquela quantidade de fiéis juntos, ele correu para casa, pegou um boné verde e saiu andando no sentido contrário ao da multidão, com o chapéu na cabeça, em um sinal de total desrespeito ao ato religioso. Não satisfeito, ainda mexeu com as filhas de Maria. Só não foi linchado pela multidão em fúria porque conseguiu se refugiar em uma leiteria na rua São Bento, onde a polícia deu-lhe proteção.

Alguns meses depois, ele lançou um livro onde tenta compreender, sem se aprofundar em méritos conceituais, com uma escrita teórica bastante selvagem, a tensão desencadeada pela sua experiência/provocação. Suas leituras de Freud, Nietzsche e Frazer são conduzidas e filtradas pela experiência vivida no confronto com a procissão.

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