Torcedores criam páginas no Facebook para pedir respeito à diversidade sexual nas arquibancadas

Movimento que surgiu em Minas Gerais se espalhou pelo Brasil e quer fim da homofobia nos estádios

André Baibich
andre.baibich@zerohora.com.br

No gramado, a homossexualidade sempre foi tabu. Gays são como fantasmas. Nas arquibancadas, eles aparecem – citados em cânticos ofensivos e xingamentos.
Para quebrar a perpetuação do preconceito, desde o início do mês pipocam no Facebook páginas criadas por torcedores de clubes brasileiros pedindo o fim da homofobia no esporte.

A onda de tolerância começou no dia 9 de abril, quando torcedores do Atlético-MG fundaram a Galo Queer. Não demorou para que seguidores da dupla Gre-Nal se inspirassem no exemplo mineiro. Assim, surgiram a QUEERlorado e a Grêmio Queer. Em outros pontos do Brasil, clubes grandes como Corinthians, Palmeiras, Flamengo e São Paulo aderiram ao movimento. A pioneira página do Galo já conta com quase 5 mil seguidores. Os dois representantes de Grêmio e Inter ultrapassaram 800 cada um.

Confira bastidores da reportagem com torcedores engajados na campanha:

http://videos.clicrbs.com.br/rs/zerohora/video/zhesportes/2013/04/veja-bastidores-reportagem-sobre-torcedores-que-pedem-fim-homofobia-futebol/19502

Os administradores dos espaços lembram que a ideia não é criar torcidas de homossexuais e, sim, promover o fim da intolerância à diversidade sexual. Entre os que curtem as páginas, estão muitos heterossexuais.

– O movimento (no Facebook) é interessantíssimo porque não vê a sexualidade como um fator de inferioridade, como uma forma de ofender. É uma grande maneira de dar início ao debate – diz o coordenador jurídico do Grupo Somos, organização multidisciplinar que defende o respeito à diversidade sexual, Bernardo Amorim.

Lançar luz ao problema da homofobia é justamente um dos objetivos dos espaços virtuais que se espalharam pelo Brasil. Há consciência de que o processo de mudança nas arquibancadas é difícil e lento.

– A ideia é justamente criar um debate inicial. No final dos anos 1990 e início dos 2000, era muito complicado para uma mulher ir ao Beira-Rio. Houve uma mudança geral da postura da torcida de lá para cá – lembra o sociólogo Diego Dresch, um dos criadores da QUEERlorado.

Com as páginas no Face, porém, surgiram evidências do preconceito. Os criadores e administradores dos espaços virtuais de Inter e Grêmio receberam ameaças de agressão de torcedores. Se fossem aos estádios, juravam os homofóbicos, seriam hostilizados.

Discriminação que Kátia Azambuja, socióloga que administra a Grêmio Queer ao lado de Júlio Câmara, lembra ter percebido em alguns dos cânticos entoados no Olímpico:

– Eu ia com frequência ao Olímpico, mas não cantava e ficava envergonhada com gritos racistas e homofóbicos. Lembro de ter levado uma amiga negra ao estádio e não sabia onde me esconder quando a torcida começou a cantar.

A característica do torcedor no Rio Grande do Sul não colabora, salienta Gustavo Bandeira, mestre em Educação pela UFRGS, cuja dissertação estudou as manifestações de masculinidade nas torcidas da Dupla. O modelo de comportamento se aproxima do argentino e passa longe do estereótipo do brasileiro, que imita o Carnaval nas arquibancadas.

– A torcida brasileira é vista como carnavalesca. Aceita, por exemplo, homens vestidos de mulheres. O estilo gaúcho de torcer se aproxima do argentino, mais viril. É um modelo que pode frear este tipo de movimento que prega o respeito às diferenças – destaca Bandeira.

A transformação dos estádios em arenas, que podem levar à elitização do público, é, para o pesquisador, outro obstáculo:

– Quando há elitização, geralmente não vem junto um maior respeito às diferenças sexuais. Esse tipo de processo normalmente é acompanhado de um pensamento mais conservador.

Quem sonha com mais tolerância às diferenças no futebol, como os gremistas e colorados que posaram para as fotos desta reportagem, deseja também o fim de comportamentos enraizados no concreto dos estádios (há quem não se veja como homofóbico, mas se junte ao grupo que canta menosprezando os gays). Para os torcedores envolvidos ou simpatizantes do movimento, o desafio será sair do ambiente virtual e transformar o mundo real.

O pioneirismo da Coligay

No Rio Grande do Sul, o primeiro movimento de homossexuais ligado ao futebol foi a torcida organizada Coligay, que apoiou o Grêmio nos anos 1970 e 1980. Carlos Duarte assistiu a alguns jogos junto dos torcedores e não tem lembrança de episódios em que tenham sofrido agressões ou preconceito.

– Ninguém se metia com a Coligay. O pessoal comentava: “Tem que ser muito macho para fazer isso” (risos). Era uma grande brincadeira e muito legal de ver – destaca o arquiteto de 52 anos.

Na época, Duarte viajava ao Interior para acompanhar o Grêmio. Lembra do ambiente de ódio aos times da Capital nos estádios e afirma que o setor da Coligay era um dos poucos seguros para torcer.

Hostilidade ao natural

Apesar das mensagens de tolerância na internet e de um estudo inglês que mostra maior aceitação dos gays (leia entrevista a seguir), o ambiente da arquibancada no Brasil segue calcado de preconceitos. Xingamentos e agressões são comuns. Ser homossexual é tomado como motivo de chacota.

Augusto Brito, professor universitário de 26 anos, homossexual, foi frequentador do Olímpico e esteve na inauguração da Arena. Só deixou de ir aos jogos por ter se mudado para Manaus. Não relata casos em que tenha sofrido discriminação diretamente, mas recorda:

– Quando eu ia ao estádio, ia com meus amigos héteros, até porque não tenho amigos homossexuais que se interessem por futebol. De qualquer modo, sabia que era um ambiente meio hostil para se manifestar.

O futebol é visto como o esporte que menos aceita a diversidade, sustenta o coordenador jurídico do Grupo Somos, Bernardo Amorim:

– Tem características fortes de machismo. Os cânticos recheados de preconceitos aos gays são tomados como algo natural.

Tão natural que Brito nem os encarava como ofensa:

– Eu ouvia isso mais quando a torcida estava xingando o juiz. Mas são como as frases que eu ouço no dia a dia. Meus amigos fazem esse tipo de piada de vez em quando, mas eu não me ofendo.

ENTREVISTA/ELLIS CASHMORE-  À espera do efeito dominó

A quase inexistência de jogadores homossexuais assumidos é uma das evidências da intolerância no futebol. O temor da reação hostil por parte do público mantém a orientação sexual no armário dos vestiários. Mas uma pesquisa da Universidade de Staffordshire, na Inglaterra, dá indícios de que o quadro pode mudar.

O trabalho, com participação de mais de 3 mil entrevistados entre torcedores, jogadores, árbitros e técnicos, mostrou que quase todos (93%) condenam o preconceito aos gays no esporte – e 60% disseram que gostariam de ver jogadores assumindo sua homossexualidade.

Em conversa por telefone com Zero Hora, o professor Ellis Cashmore, que conduziu o estudo ao lado de John Cleland,  fala com otimismo sobre o processo de aceitação dos gays nas arquibancadas e nos gramados.

Zero Hora – O senhor ficou surpreso com os resultados da pesquisa?
Ellis Cashmore –
 Fiquei estupefato. Há dois anos, essa questão foi à mídia porque a Federação Inglesa se preocupou com um suposto crescimento da homofobia e decidiu iniciar uma campanha de conscientização. Um conhecido profissional de relações públicas do país falou sobre o assunto e disse que tinha jogadores gays como clientes, aos quais aconselhava a não se assumir. Acreditava que o ambiente era muito hostil, que a cultura do futebol era medieval. Essas declarações nunca foram questionadas. Como pesquisador, meu desafio era achar um sistema para testar isso.

ZH – Não há uma chance de os participantes terem respondido o que é “politicamente correto”?
Cashmore –
 Ninguém vai se declarar como um racista, mas é claro que seu comportamento pode ser. De alguma forma, não há pessoas preconceituosas, há instâncias de comportamento, mas não há nenhuma motivação para mentir na pesquisa. As respostas são totalmente anônimas e confidenciais. Se você perguntar às pessoas na rua, elas não vão ser sinceras, mas fazer pela internet garantiu que isso não acontecesse. O sistema permitia a quem participou se explicar, dissertar sobre o tema.

ZH – Qual seria a importância de um jogador de destaque se assumir como homossexual?
Cashmore –
 Tenho cuidado para não fazer campanha. Escrevo como um pesquisador neutro. As pessoas podem me dizer: “É muito fácil para você dizer que um jogador gay deve se assumir, você é um professor branco e heterossexual” (risos). Se alguém decidisse se assumir, acredito que teríamos um “efeito dominó” e vários outros jogadores seguiriam. Os torcedores se perguntam a razão para que os jogadores não se assumam. Eles apontam o dedo acusatório para clubes e empresários, que estariam freando esse processo por temor de que um jogador gay os trouxesse prejuízos em contratos de imagem, por exemplo. Até aqui, só tivemos um jogador de destaque que se assumiu (Justin Fashanu, que atuou nos anos 1980 e 1990 na Inglaterra).

ZH – O senhor acredita que teria resultados parecidos em um país como o Brasil?
Cashmore –
 Um dos resultados unânimes é que os torcedores priorizam a habilidade do jogador acima de tudo. Minha opinião pessoal, e é só uma opinião pessoal, é de que os resultados seriam os mesmos. Mas eu quero adicionar uma questão que complica um pouco as coisas e ainda me intriga. Um dos temas da minha pesquisa é o racismo contra os negros, algo que nunca desapareceu na Inglaterra. Mesmo assim, você olha para qualquer time profissional e encontra de 40% a 50% de jogadores negros. Alguns dos grandes jogadores da Inglaterra são negros. E o racismo nunca desapareceu. Então, mesmo que os torcedores priorizem a qualidade do jogador acima de tudo, eu ainda reflito sobre o que faz com que o racismo ainda exista no futebol.

Dois casos

— Em 1981, o atacante Justin Fashanu ganhou as manchetes por ser protagonista da primeira transferência na Inglaterra que teve valor superior a 1 milhão de libras, quando trocou o Norwich City pelo Nottingham Forest. Mas seu pioneirismo não parou por aí. No início dos anos 1990, já na fase final de sua carreira, assumiu que era homossexual. Em 1998, após ser acusado de assédio sexual por um menino de 17 anos, se matou.

— Em fevereiro de 2013, o norte-americano Robbie Rogers, que chegou a jogar pela seleção de seu país, anunciou sua aposentadoria com apenas 25 anos, logo após assumir que é gay. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, revelou que não haveria como conciliar a manifestação pública de sua sexualidade com a continuidade no ambiente do futebol.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/esportes/noticia/2013/04/torcedores-criam-paginas-no-facebook-para-pedir-respeito-a-diversidade-sexual-nas-arquibancadas-4113055.html

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